segunda-feira, 8 de setembro de 2014

CAPÍTULO 3 INTERFERÊNCIAS

Cada segundo parecia uma eternidade. Enquanto subia, degrau por degrau, consegui perceber o olhar inquisitivo do meu pai, a apreensão do Yuri e a expectativa de todos os presentes no auditório. Peguei o microfone, levantei a cabeça e pronunciei a minha sentença de vida:

_ Eu vou fazer a audição para at...
Eu travei, não consegui falar o resto da palavra.
Meu deus, o que eu faço?
Enquanto eu ficava lá, com a boca aberta o tempo corria e eu não conseguia pensar.
Mas, como se Deus tivesse ouvido a minha prece, um anjo apareceu!
Henrique entrou correndo pela lateral do palco e disse para os representantes:
_ Peço desculpa aos senhores por interromper essa audição, mas sinto que tenho uma dívida comigo mesmo por não ter feito a escolha que meu coração queria.
Ele fez uma pausa para tomar fôlego, olhou nos meus olhos e prosseguiu:
_ Eu não posso permitir que você faça a escolha errada. Se você travou, é porque seu coração não quer que você seja atriz.
Ele virou para os representantes, que nos encaravam com olhares reprovadores, e concluiu:
_ Eu fiz a minha escolha errada.
Desta vez, quem falou foi o Mor da Dança:
_ Henrique, do que você está falando? Você é um sambista famoso. Samba como ninguém. A nossa sociedade preza a imagem e o talento. Não entendo como, perante isto, você pode ter feito a escolha errada.
Pelo visto eles se conheciam.
_ Esse é o problema da nossa sociedade. Nós fazemos as coisas para aparecer, todo mundo se acha o melhor, mas ninguém aprecia o trabalho dos outros. Eu quero poder fazer as coisas que eu amo também.
Parecia que os caras não tinham entendido nada, a não ser que aquilo era um sinal de revolta. O Mor da Música tomou voz:
_ Henrique, vamos acabar com esse discurso. Se você quiser fazer audição para cantor, eu permito.
Não, aquilo estava tomando o caminho errado. Eu juntei toda a coragem que tinha e falei:
_ Nos queremos mais do que isso. Queremos algo que nos possibilite fazer mais de uma coisa. Um grupo que permita a representação das três artes! Queremos os musicais de volta!

Os representantes se encararam, desconfiados.
_ Não podemos permitir que algumas pessoas tenham a vantagem de serem famosas e boas em mais de uma arte! Isso pode causar inúmeros problemas senhorita.
Ninguém me apoiou, todos ficaram em silêncio esperando a sentença dos representantes. O Mor de música tomou a frente:
_ Senhor Henrique, se quiser fazer sua audição agora, permitiremos. Caso contrário, saia do palco.
Henrique veio na minha direção, tocou o meu ombro esquerdo:
_ Tudo bem para você se eu me apresentar na sua frente?
Como eu precisava de tempo para escolher a minha música, eu não fiz oposição. Mas o que veio a seguir me chocou: Ele segurou meu rosto com suas mãos e me beijou na frente de todos.
_ Saiba que farei isso por você!
Ele começou a marcar o tempo com estalos de dedo e cantar:


Só consegui olhar para ele. Não percebi se ele foi bem ou mal. Só consegui ver ele na minha frente e sentir meu coração disparando.
Ele terminou, sorriu para mim e acenou dizendo que o palco era todo meu.
Encarei o meu público de frente. Esqueci de me apresentar e comecei logo cantando:


Duas semanas depois, com o resultado já liberado, lá estávamos nós, envolta de uma fogueira, abraçados e todos juntos comemorando a aprovação. Eu estava no colo do Henrique, me sentindo a garota mais feliz daquela noite. Meu amigo Yuri estava sentado perto do menino loirinho, o tal de Lilian.
Desde as audições, os dois têm estado bem próximos. Yuri me diz que eles só estão se conhecendo, mas acredito que esteja rolando algo mais. Fico feliz por eles. Todos paramos de conversar e damos início a sessão de cantoria. Lilian começa, e, apesar de todos estarem contentes e satisfeitos, sabemos que esse é um sistema frágil e que logo precisará ser reestruturado:


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