sábado, 6 de setembro de 2014

TOP 5 - WEB SÉRIE "Na trilha da Fama"

PRÓLOGO

2025: Seis anos depois de estourar a Febre do Estrelismo, o Governo de São Paulo - que agora inclui o RJ, decretou que a sociedade civil deveria se organizar através de grupos artísticos. A tal crise havia desestruturado as fundações governamentais de grandes cidades como Recife, Curitiba e Brasília. A necessidade grotesca de grande parte da população brasileira em virar um ícone artístico gerou intervenções urbanas catastróficas, festas de celebridades populares vulgares, boatos jornalísticos letais e, por fim, o caos nos sistemas produtivos por falta de mão de obra.
Com exceção da sudeste, todas as regiões brasileiras viraram modelos de anarquias caóticas imaginadas no século XX que sobreviviam fornecendo produtos para São Paulo, onde a população se dividia em grupos e facções. Eram elas:
 Dançarinos 
 Artistas Plásticos 
 Dramaturgos 
 Musicistas 

EPISÓDIO 1 - GRUPO DE APOIO

Todo mundo sabe como o vestibular é a decisão mais complicada da vida de um adolescente. Nessa nova divisão social, então, é um peso quase sufocante. Geralmente, os jovens tendem a escolher os grupos de seus pais por já ter afinidade com essas artes. Mas, no meu caso, até isso é um desafio: meu pai é o grande Representante Mor da nossa facção. 

_ Filha, o teste é semana que vem. Você está preparada mesmo? - Minha mãe parecia uma neurótica. Sua carreira como atriz sempre esteve na sombra dos trabalhos do meu pai, mesmo sendo muito mais talentosa do que ele.

_ Não mãe, você sabe que eu amo cantar e atuar! 
_ Mas seu pai já te disse que sua interpretação da Capitu é incomparável. Por que optar por algo incerto? - Ela parecia desesperada enquanto falava.
O negócio é o seguinte: eu ainda não sei se vou fazer o vestibular para entrar no grupo dos Dramaturgos ou no dos Musicistas. Não quero decepcionar meus pais.
_ Ai mãe, depois nós conversamos sobre isso. Combinei com o Yuri de ajudar ele no ensaio para o teste! 

Peguei minha mochila e saí correndo para a rua. Havíamos combinado de nos encontrar na praça perto da esquina, mas dava para ver que ele ainda não estava lá. Eu queria muito ter a convicção que o Yuri tinha. Ele decidiu cinco meses antes do teste que tentaria seguir a vida como cantor, e vem treinando a sua música de audição desde então.
Sentei em baixo da árvore para esperar, quando de repente "História de Lily Braun" começou a tocar e ele pulou de cima da árvore cantando:


Seu timbre era seguro e tinha uma textura diferente de todas as vozes que eu já tinha ouvido. Eu tinha certeza de que ele passaria logo de primeira:

_ Me ajuda a levantar amigo. Se você fizer uma entrada dessas, com certeza eles te passam - Disse com uma piscada.
Ele me abraçou forte, colocou o rádio no chão, apontou para ele e falou:
_Sua vez. Mostre-me do que você é capaz.
_ Amigo, você sabe que não estou preparada para isso. Estive pensando, caso decida por música, vou tentar só no ano que vem - Ele fez aquele ar de reprovação e falou:
_ Larga de ser molenga e coloca o playback logo.
Ainda bem que eu estava com um pendrive na bolsa que tinha a minha playlist favorita: Musicais. Coloquei "Somewhere over the rainbow":


_Bárbara, sua voz é maravilhosa! Você começou um pouco hesitante, mas mandou muito bem.
_ Não sei Yuri, não sei se é isso que eu quero fazer da minha vida, sabe? Já pensou como vou ser criticada?
_ Linda, eu conheço um grupo anônimo de jovens que estão na mesma indecisão que você. Eles já estão nas últimas reuniões, mas se você quiser, podemos ir lá amanhã.
Com ele, eu faria qualquer coisa. Ficamos combinados de ir na reunião às 19hras.

*****

Eu poderia dizer que aquele lugar estava cheio de pessoas estranhas só para me sentir mais confortável, mas a verdade era que a maioria daquelas pessoas pareciam Super stars. Mas não era para menos, a maioria delas era virtuosa e habilidosa em outros campos. Eu e Yuri sentamos ao lado de um garoto negro, com cabelos ralos e lindos olhos verdes. Ele piscou pra mim e logo se adiantou para o meio do palco. Virou-se para o grupo, deu um grande sorriso e começou a falar:

_ A maioria de vocês já me conhece. Mas vejo que hoje temos gente nova - Ele disse enquanto olhava para mim. 
_ Meu nome é Henrique Lopes, sou apaixonado por música, mas minha formação é em dança - Enquanto ele dizia isso, por um instante, pareceu possível distinguir um pouco de arrependimento na sua expressão. 
_ Eu vou começar me apresentando, e depois vocês podem subir aos poucos e se apresentarem da forma que quiserem. Aqui é um espaço onde você pode ter quantas facções quiser.
Ele caminhou até a banda, posicionou-se e começou: 


Fiquei absorvida por aquela voz, não consegui tirar meus olhos daquele gingado e daquela alegria no palco. Ele realmente sabia sambar, talvez até mais do que cantar.
Senti um beliscão no braço, virei pro lado e ouvi o Yuri sussurrando:

_ Ele te chamou pra subir no palco! Vai lá!

Meio perdida, vi ele com a mão estendida, segurei-a e subi as escadas.

_ Acho que você poderia nos contar o que te trouxe ao grupo hoje e, depois, se apresentar. Aceita? - Para mim aquilo soou quase como um pedido de namoro. O bom da música é que ela transmite as vibrações do nosso espirito, então, quando duas almas gêmeas se encontram, elas se reconhecem instantaneamente. Minhas pernas amoleceram e eu falei como se fosse só para ele:
_ Meus pais são atores, mas amo música. Meu teste é semana que vem, e eu não sei o que fazer.

Ouvi todo mundo rindo. Até o Henrique deu uma risadinha e disse:

_ Calma, não esqueça de respirar. Você se sente melhor cantando então?
_ Acho que sim... - Enquanto eu falava, uma garota ruiva de olhos verdes subiu ao palco, colocou-se entre eu e o Henrique e disse:
_Acho que ela está nervosa demais para isso baby. Deixa que eu mostro pra ela como se faz - Ela me empurrou de forma grosseira para fora do palco e começou a cantar Ive Brussel:


Enquanto cantava, ficava se pendurando no anfitrião e, tenho que admitir, seduzia com olhares repletos de sexy appeal. Yuri me puxou para as cadeiras de novo e sussurrou:

_ Os meninos ali me contaram que eles são namorados há três anos, mas que o cara lá é bem galinhão. Confesso que eu nem ligaria se ele fosse galinha comigo - Ele disse aquilo enquanto colocava o dedo na boca com uma piscadela. Ele sabia que essas coisas me faziam rir porque, sim, o Yuri era gay, mas ele não era afeminado e quando tentava ser, ficava hilário.
Dei uma risadinha e falei:

_ Vamos Yuri, não estou me sentindo muito bem.
Ele assentiu, pegou nos meus ombros, levantamos e fomos embora.
Quando cheguei em casa, deitei na minha cama e chorei o resto do dia.


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