PRÓLOGO
2025: Seis anos
depois de estourar a Febre do Estrelismo, o Governo de São Paulo - que
agora inclui o RJ, decretou que a sociedade civil deveria se organizar através
de grupos artísticos. A tal crise havia desestruturado as fundações
governamentais de grandes cidades como Recife, Curitiba e Brasília. A
necessidade grotesca de grande parte da população brasileira em virar um ícone
artístico gerou intervenções urbanas catastróficas, festas de celebridades
populares vulgares, boatos jornalísticos letais e, por fim, o caos nos sistemas
produtivos por falta de mão de obra.
Com exceção da
sudeste, todas as regiões brasileiras viraram modelos de anarquias caóticas
imaginadas no século XX que sobreviviam fornecendo produtos para São Paulo,
onde a população se dividia em grupos e facções. Eram elas:
Dançarinos
Artistas
Plásticos
Dramaturgos
Musicistas
EPISÓDIO 1 - GRUPO DE APOIO
Todo mundo sabe
como o vestibular é a decisão mais complicada da vida de um adolescente. Nessa
nova divisão social, então, é um peso quase sufocante. Geralmente, os jovens
tendem a escolher os grupos de seus pais por já ter afinidade com essas artes.
Mas, no meu caso, até isso é um desafio: meu pai é o grande Representante Mor
da nossa facção.
_ Filha, o teste é
semana que vem. Você está preparada mesmo? - Minha mãe parecia uma neurótica.
Sua carreira como atriz sempre esteve na sombra dos trabalhos do meu pai, mesmo
sendo muito mais talentosa do que ele.
_ Não mãe, você
sabe que eu amo cantar e atuar!
_ Mas seu pai já te
disse que sua interpretação da Capitu é incomparável. Por que optar por algo
incerto? - Ela parecia desesperada enquanto falava.
O negócio é o
seguinte: eu ainda não sei se vou fazer o vestibular para entrar no grupo dos
Dramaturgos ou no dos Musicistas. Não quero decepcionar meus pais.
_ Ai mãe, depois
nós conversamos sobre isso. Combinei com o Yuri de ajudar ele no ensaio para o
teste!
Peguei minha
mochila e saí correndo para a rua. Havíamos combinado de nos encontrar na praça
perto da esquina, mas dava para ver que ele ainda não estava lá. Eu queria
muito ter a convicção que o Yuri tinha. Ele decidiu cinco meses antes do teste
que tentaria seguir a vida como cantor, e vem treinando a sua música de audição
desde então.
Sentei em baixo da
árvore para esperar, quando de repente "História de Lily Braun"
começou a tocar e ele pulou de cima da árvore cantando:
Seu timbre era
seguro e tinha uma textura diferente de todas as vozes que eu já tinha ouvido.
Eu tinha certeza de que ele passaria logo de primeira:
_ Me ajuda a
levantar amigo. Se você fizer uma entrada dessas, com certeza eles te passam -
Disse com uma piscada.
Ele me abraçou forte, colocou o rádio no chão, apontou para ele e falou:
_Sua vez. Mostre-me
do que você é capaz.
_ Amigo, você sabe
que não estou preparada para isso. Estive pensando, caso decida por música, vou
tentar só no ano que vem - Ele fez aquele ar de reprovação e falou:
_ Larga de ser
molenga e coloca o playback logo.
Ainda bem que eu
estava com um pendrive na bolsa que tinha a minha playlist favorita:
Musicais. Coloquei "Somewhere over the rainbow":
_Bárbara, sua voz é
maravilhosa! Você começou um pouco hesitante, mas mandou muito bem.
_ Não sei Yuri, não
sei se é isso que eu quero fazer da minha vida, sabe? Já pensou como vou ser
criticada?
_ Linda, eu conheço
um grupo anônimo de jovens que estão na mesma indecisão que você. Eles já estão
nas últimas reuniões, mas se você quiser, podemos ir lá amanhã.
Com ele, eu faria
qualquer coisa. Ficamos combinados de ir na reunião às 19hras.
*****
Eu poderia dizer
que aquele lugar estava cheio de pessoas estranhas só para me sentir mais
confortável, mas a verdade era que a maioria daquelas pessoas pareciam Super
stars. Mas não era para menos, a maioria delas era virtuosa e
habilidosa em outros campos. Eu e Yuri sentamos ao lado de um garoto negro, com
cabelos ralos e lindos olhos verdes. Ele piscou pra mim e logo se adiantou para
o meio do palco. Virou-se para o grupo, deu um grande sorriso e começou a
falar:
_ A maioria de
vocês já me conhece. Mas vejo que hoje temos gente nova - Ele disse enquanto olhava
para mim.
_ Meu nome é
Henrique Lopes, sou apaixonado por música, mas minha formação é em dança - Enquanto
ele dizia isso, por um instante, pareceu possível distinguir um pouco de
arrependimento na sua expressão.
_ Eu vou começar me
apresentando, e depois vocês podem subir aos poucos e se apresentarem da forma
que quiserem. Aqui é um espaço onde você pode ter quantas facções quiser.
Ele caminhou até a
banda, posicionou-se e começou:
Fiquei absorvida
por aquela voz, não consegui tirar meus olhos daquele gingado e daquela alegria
no palco. Ele realmente sabia sambar, talvez até mais do que cantar.
Senti um beliscão
no braço, virei pro lado e ouvi o Yuri sussurrando:
_ Ele te chamou pra
subir no palco! Vai lá!
Meio perdida, vi
ele com a mão estendida, segurei-a e subi as escadas.
_ Acho que você
poderia nos contar o que te trouxe ao grupo hoje e, depois, se apresentar.
Aceita? - Para mim aquilo soou quase como um pedido de namoro. O bom da música
é que ela transmite as vibrações do nosso espirito, então, quando duas almas
gêmeas se encontram, elas se reconhecem instantaneamente. Minhas pernas amoleceram
e eu falei como se fosse só para ele:
_ Meus pais são
atores, mas amo música. Meu teste é semana que vem, e eu não sei o que fazer.
Ouvi todo mundo
rindo. Até o Henrique deu uma risadinha e disse:
_ Calma, não
esqueça de respirar. Você se sente melhor cantando então?
_ Acho que sim... -
Enquanto eu falava, uma garota ruiva de olhos verdes subiu ao palco, colocou-se
entre eu e o Henrique e disse:
_Acho que ela está
nervosa demais para isso baby. Deixa que eu mostro pra ela como se
faz - Ela me empurrou de forma grosseira para fora do palco e começou a cantar
Ive Brussel:
Enquanto cantava,
ficava se pendurando no anfitrião e, tenho que admitir, seduzia com olhares
repletos de sexy appeal. Yuri me puxou para as cadeiras de novo e
sussurrou:
_ Os meninos ali me
contaram que eles são namorados há três anos, mas que o cara lá é bem galinhão.
Confesso que eu nem ligaria se ele fosse galinha comigo - Ele disse aquilo enquanto
colocava o dedo na boca com uma piscadela. Ele sabia que essas coisas me faziam
rir porque, sim, o Yuri era gay, mas ele não era afeminado e quando tentava
ser, ficava hilário.
Dei uma risadinha e
falei:
_ Vamos Yuri, não
estou me sentindo muito bem.
Ele assentiu, pegou
nos meus ombros, levantamos e fomos embora.
Quando cheguei em
casa, deitei na minha cama e chorei o resto do dia.
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