sábado, 5 de julho de 2014

Do senso comum rumo ao tudo junto e misturado

Junte a carreira de Djvan à música de Zeca Pagodinho. Adicione uma porção desmedida de paixão por Shakira, mais séries de televisão, Relações Públicas, cinema, teatro e trabalho social. O resultado é uma mistura fresca, heterogênea em ebulição constante, com sabor de samba, bossa-nova e desafio. Senhores e senhores, bebam cada palavra com que Alan Cruz constrói a própria história....

Por Claiton Czizewsski



1)           Quem é e o quê faz Alan Cruz quando não está cantando?
Eu sou caseiro. Gosto de assistir a bastantes filmes. Eu consigo passar o fim de semana inteiro assistindo a coisas no Netflix! Amo séries! O quê eu faço são Relações Públicas – me formei em 2010 e trabalho com comunicação digital, hoje em dia. Quando não tô cantando, eu tô fazendo isso: assistindo a filmes, vou bastante ao cinema, eu vou ao teatro... Tenho uma vida cultural movimentada! Ou eu tô com a minha família, nas festas, e com amigos bebendo vinho, cerveja e etc...

2)           E como este consumidor voraz de cultura descobriu que cantava?
     Um dia, eu cantei pra um amigo, que é cantor, e ele falou que eu era afinado. Eu não acreditei muito, porque sempre ouvi o contrário. Até que, um dia, eu tava em casa sem fazer nada e mandei um áudio pra ele, cantando uma música do Djavan – era “Lilás”. Ele não respondeu nada, e eu deixe quieto. Até que ele disse: “desculpa, eu mandei pra uma amiga, que é cantora também, e ela falou que você tem um superpotencial”! Aí que eu ingressei. Isso foi ano passado (risos). Eu comecei a cantar mais, fiz teste pra entrar em um curso* (de canto), aqui em São Paulo, e comecei a tentar trabalhar melhor alguma coisa que eu tenho – mas não sabia que tinha – e preciso lapidar.

3)           Você citou Djavan. Falemos de influências. Quais cantores te influenciam?
Eu tenho influência de Djavan. Acho que, se eu fosse roubar a carreira de alguém, seria a do Djavan. Também o Zeca Pagodinho, que é uma influência muito forte. Vem desde quando eu era pequeno. Difícil falar de influência, caramba! Esses dois são as grandes influências pra mim, mas eu colocaria, ainda, Beth Carvalho, Elis Regina, porque ela tem influência pra todo mundo no Brasil.

4)           E Shakira? Você é um grande fã dela, não?
Não tem nenhum outro artista de que eu goste tanto quanto eu gosto de Shakira! A conheci quando eu tinha 8 anos, foi o primeiro álbum dela vendido aqui no Brasil. E, desde então, eu comecei a me apaixonar pelo trabalho dela e por quem ela é: uma menina que já era rica. Aí, o pai quebra, e ela batalha, sendo mulher, latina. Produz seu disco aos 15 anos. Consegue se formar na escola, atuar e ainda consegue criar uma fundação pra criar escolas pra crianças carentes da sua terra natal e fazer o maior sucesso na Europa e nos Estados Unidos. Além da América Latina! É surreal como ela é estrategicamente dedicada. Sem contar que, musicalmente falando, eu gosto muito de como ela soa em espanhol, e o timbre dela, diferente de qualquer outro timbre do mundo, é uma coisa que me encanta, não me cansa de ouvir! Mesmo que eu ouça 24 horas por dia, não fico cansado! Ela tem um legado muito grande de produzir e escrever essas letras. Eu acho fascinante como ela saiu do nada e é uma das maiores artistas do mundo. Não a citei  como uma das minhas influências, porque achei que ia ficar um pouco clichê, mas com certeza, ela é uma das mais fortes influências que eu tenho, musicalmente e como pessoa. Ser cantora, compositora, benfeitora, é algo que eu tenho como meta na minha vida. Se eu for metade disso tudo, já vou me sentir realizado.

5) Segundo você, Shakira saiu do nada pro sucesso mundial. E você, de onde vem e aonde quer chegar?
Se você considerar antes de eu ser adotado, saí do nada (risos).Eu tenho uma família mais estruturada que a da Shakira. Enfim, a minha família não quebrou como a dela, que chegou a passar fome. Acho que eu saio de um lugar que é o senso comum, o lugar comum de todos: eu fiz o ensino médio, fui pra faculdade, me formei e trabalho na área que escolhi. Eu quero chegar ao nível de conseguir viver de uma coisa que eu realmente gosto, que realmente me dá prazer, que é a música. Eu sempre fui muito musical. Só demorei pra perceber que eu tinha potencial pra levar isso como uma profissão pra mim.

6) E, agora que percebeu, quais seus planos?
Eu procurei um curso de violão, porque acho que preciso aprender, e também procurei um curso de canto, porque eu preciso melhorar, ter técnica. Agora, eu tô começando a trabalhar pra ver até onde eu posso quebrar a barreira das minhas limitações. Eu tô indo. Não sou muito de me jogar do nada, mas eu estou me preparando pro momento em que eu esteja realmente preparado pra encarar o mercado musical. Seja em musicais, no teatro, numa banda, ou numa carreira solo.

7) Planos não faltam. Como o Cyber Vocal se encaixa neles?
Ele apareceu no momento certo, pra eu testar os comparativos. As pessoas se acham muito especiais, mas, principalmente no mundo da música, você se considerar especial não significa que você é, de fato, especial. Você tem que trabalhar. Eu acho que tudo na vida é a forma como você encara o trabalho. Você tem que testar e ver quais as pessoas que têm vozes melhores que a sua e quais estão ali pra te dar um caminho. E o Cyber Vocal apareceu bem nesse momento em que eu estava procurando ajuda na questão do meu vocal. Então, participar de uma competição e ainda aprender é uma ideia maravilhosa. Num projeto amplo, o Cyber Vocal tem o papel de te testar.

8) Diante de tanto ecletismo, como você se define musicalmente?
Eu me defino uma pessoa multicultural, nesta questão de música. Isso é uma das coisas que mais me fascinou na carreira da Shakira. Além de ela ser latina, colombiana, de um lugar contra o qual já tem um certo preconceito vindo dos próprios latinos, a cada CD, ela se reinventa, traz ritmos diferentes. Eu acho que sou um cara da Música Popular Brasileira, só que uma mescla entre MPB e samba. É este o caminho que vou seguir e é nele que me defino: um samba, uma bossa-nova, uma MPB... tudo junto e misturado!

9) Senti uma pegada política no seu comentário sobre o preconceito. A arte de Alan Cruz é engajada? Se sim, em quais bandeiras?
Eu acho que, se a gente tem o poder de falar pra muitas pessoas e, realmente, ser ouvido, vale muito a pena você trabalhar em prol do fim da desigualdade. Mesmo que não sejam letras diretas, como no rap, tem muita música que é, sim, engajada socialmente, e eu acho superimportante. Não tô dizendo que a minha arte é, neste momento, engajada, política ou socialmente, em relação a alguma melhoria, mas, provavelmente, eu trabalharei nesse sentido: a questão do preconceito racial, social e contra a homossexualidade. Não sei se dá pra abraçar todas essas bandeiras de uma vez só, mas, se eu fosse ouvido por muita gente, conseguiria trabalhar isso não somente na música, mas também  com outras atitudes que mostram que eu sou adepto da igualdade racial, de gênero...

10) Shakira passou fome. Você tem fome de quê?
Fome de boa música.

*Antes do fim da edição desta entrevista, Alan Cruz recebeu a notícia da sua aprovação no Curso de Canto da ETEC de Artes.

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